se numa noite de inverno um viajante

Thursday, October 27, 2011

a divina comédia


Porque é que os deuses me odeiam?
Podia ter começado a chover mal meti os pés na rua, pés que apesar do que se avizinhava iam calçados com botas de salto, que gaja boa que é boa é também masoquista.
O que era meu estava guardado para mais tarde e assim lá fui eu a equilibrar-me nos saltos das botas, que por acaso são muito confortáveis, na primeira meia hora, dentro do autocarro com um carrinho de bebé (bebé a dormir o sono dos justos de forma a ganhar energias para me torturar melhor mais tarde) e uma mala média quase sem roupa mas com pacotes e pacotes de bolachas holandesas. Duas senhoras turcas, sentadinhas muito direitinhas a falarem mal de mim debaixo dos seus lenços, é o que dizem sempre aposto - olha-me aquela infiel duma figa nos seus saltos sem lenço, txi txi txi.
Sair do autocarro foi infernal, entrar no comboio igualmente terrível, com o filho da mãe do pica, a quem me apetecia muito introduzir um dos saltos da botas com o máximo de força possível no meio das perninhas, a apitar para fechar as portas enquanto eu tentava enfiar a mala e o carrinho com a pessoa pequenina gorda adormecida dentro do comboio, felizmente fui salva por um cavalheiro inglês, feioso mas viril, que agarrou no carrinho e em menos de nada o colocou dentro da carruagem, à saída do comboio o mesmo aconteceu, mas desta feita (expressão tão maravilhosa que eu pensava que nunca conseguiria usar) foi um cavalheiro holandês quem me socorreu e carregou a mala, fiquei com um bocado de medo que ele desatasse a correr com a minha malinha cheia de bolachas, mas tudo acabou em bem, comigo a agradecer e a abraçar a mala com delicadeza para não fazer das bolachinhas migalhas, mas sei, tenho quase a certeza, percebo dessas coisas, que só me ajudaram porque fico espectacular de saltos.
Já nas senhoras hospedeiras de terra os saltos tiveram o efeito oposto, com elas a dizerem sempre a sorrir qualquer coisa como - sua grande monga não podes levar o carrinho de bebé contigo até a porta de embarque, lixa-te, para a próxima não venhas para aqui armada em boa e pouco interessa que a nossa porta de embarque seja a meia hora daqui, alomba com a criancinha aguenta e não chora. tchau! 
Assim foi, e eu sempre a pensar que não podia piorar, mas tudo pode sempre piorar.
Agora vou ali ligar para os senhores da assistência em viagem porque o carro não pega.

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