se numa noite de inverno um viajante

Thursday, November 05, 2009

No sorriso louco das mães*

quando eu morrer, quero que os meus filhos, quando forem espalhar as minhas cinzas (ainda não decidi onde) leiam este poema do *Herberto Helder.

e chorem, ou então não.




No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.

Tuesday, May 26, 2009

fátima e a modernidade

Rafaela diz:
a minha avó trouxe-me um terço de fatima para eu pôr no espelho retrovisor
Teresa diz:
mentira
Rafaela diz:
verdade
Rafaela diz:
e eu disse
Rafaela diz:
avozinha obrigada, de certeza que eu vou gostar mto do terço
Rafaela diz:
mas no retrovisor do carro, não é muito a minha onda
Rafaela diz:
e ela ficou toda ofendida comigo... e disse "pior para ti assim já não te faço os naperons em renda para o encosto de cabeça"

Wednesday, April 29, 2009

meridiano

arranjei uma desculpa para nunca ter configurado "as horas" deste blog. 
digamos simplesmente que este é o meu fuso-horário

pois, quero o meu dinheiro de volta

nunca ninguém me disse que ia ser como no cinema, literalmente como no cinema, ou como nas series (acho que as series se encaixam aqui melhor porque exploram de forma mais prolongada e de modo a prender os espectadores [para que fiquem viciados] a angustia dos personagens), atrofiado, não me disseram que a vida imita a arte, alias diziam precisamente o contrario, ou talvez não, que inventa a solidão, que escolhe, marca, apaga e depois risca, escreve de novo, confunde, destrói, nunca me disseram que destruía, que corroía, que massacrava, ok, se calhar a parte do massacrar vinha implícita, agarrada como pele morta, da qual nem o melhor dos esfoliantes nos consegue livrar.
insisto, não me disseram e se disseram, não deviam te-lo feito, quero, exijo, vou iniciar uma demanda, preciso da minha inocência de volta, dos castelos e dos príncipes, de coesão, de imparcialidade, de tempo e calma, de sentir uma coisa de cada vez, respeitem a fila, é obrigatório que as coisas me apareçam apenas uma de cada vez e na sua vez.

(alguém me tire deste episódio da Anatomia de Grey)

obrigada

masoquismo?

só isso explica o facto de ainda estar de salto alto... 

Monday, April 27, 2009

para dividir o indivisível

Ontem acordei e lembrei-me do Tiago, não se trata de um exercício habitual, ele não foi a primeira paixão da minha vida, e pensava eu, nada de extraordinário se tinha passado entre nós, nada digno de marca no calendário, ou qualquer outro tipo de honra. Até ontem este era um local da minha mente cheio de teias de aranha e pó, morada perfeita para ácaros, livros velhos, álbuns esquecidos e outras velharias, quase que posso jurar que em 11 anos, não pensei uma vez que fosse nisto.
Lembrei-me do Tiago e de mim, no alto dos nossos 14 anos, de como ele se dizia apaixonado e de como eu lhe dizia que não, que não devíamos estragar a nossa amizade (longuíssima), nunca chegámos a namorados. Mas vá não é por isso que estou aqui a desenterrar o que nem sabia enterrado. Lembrei-me daquele fim-de-semana, da ilha, da praia só para nós, da chuva, de estarmos ali sozinhos (com os respectivos pais e restante comitiva), do pontão, de nadarmos tanto (ele nadava especialmente bem e eu que nunca consegui o estilo mariposa), da noite, do recolhimento, da escuridão, da casa pequena demais para tantas pessoas e do espírito de acampamento, lembro-me e é por isso que estou aqui, lembro-me de dormirmos juntos, sim dormimos juntos, eu, ele e irmãzinha, que obviamente dormiu entre nós, não haviam camas suficientes para todos e os "miúdos" dormiram todos juntos. Lembro-me de que mal se fez escuro demos as mãos e passamos assim a noite inteira, de mão dada, mais nada, e quando lembrei disso, parece-me tão bonito, como eu nunca mais vi, nunca mais dei as mãos assim.
Ímpar

Thursday, April 16, 2009

cast away




A minha memória é uma coisa terrível. Podia ser terrível por não me lembrar de nada, mas funciona precisamente ao contrario. Eu sou daquelas pessoas que se lembram de tudo e, é tão irritante andar sempre a carregar este arsenal de informação para todo lado, mas vá eu até vou vivendo bem com isso, vivo bem com o facto de me lembrar das cuecas que ele usava na nossa primeira vez, ou o que aquela amiga me contou há não sei quantos e que já nem ela se lembra, vivo bem com isso. 
Mas, se não houvesse um mas não havia post, o que me maltrata é que no que se refere a mim ninguém se lembra de nada, e não estou a dizer que a senhora do café não se lembra que eu bebo sempre café com adoçante (porque ela até sabe), a verdade é que há pessoas que nem se lembram da minha cara (e eu não sou do tipo comum) e pior é quando alguém importante, com quem partilho os dias, parece sofrer de alzheimer precoce.

Adiante, estou irritada, gostava de passar a off esta coisa da memória mas não consigo.

Sugestões para lidar com a amnésia selectiva?

(a foto é só porque sim e porque se eu naufragasse o mais certo era ninguém dar por nada)


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